Em 2001, quando o Congresso brasileiro aprovou projeto permitindo a divisão do Pará e a criação de um estado do Tapajós, um dos santarenos mais paraenses de todos os tempos, o poeta Ruy Barata, escreveu uma pequena e ao mesmo tempo imensa frase: “eu sou de um país que se chama Pará”. Ruy Barata é o patrono do Grão-Pará livre: ligado ao Brasil por opção, mas com sua soberania, com sua dignidade, preservadas.
Neste momento que o Congresso brasileiro aprovou a realização de plebiscito sobre criação do estado do Tapajós, é oportuno divulgar o grito de guerra de Ruy Barata que sugere uma reflexão: quem tem interesse na divisão do Pará? Que futuro podemos esperar se essa divisão se concretizar?

Ruy Guilherme Paranatinga Barata (Santarém, 25 de junho de 1920 — São Paulo, 23 de abril de 1990.

“Sou paraense e, como tantos bons paraenses, nascido em Santarém.
Acho inadmissível a intenção de dividir o Pará.
Idéia obtusa de maus santarenos e de maus paraenses, guiados por ambição desmedida e por interesses pessoais, a divisão do Pará em tudo compromete o futuro desenvolvimento da região.
Maus santarenos que se deixam levar pela ilusão de que essa figura institucional que é ser capital de estado lhes trará melhores dias.
Maus paraenses movidos pelo interesse politiqueiro de ter mais cargos públicos a sua disposição.
Maus santarenos que ofertam gratuitamente ao estado brasileiro a sua verdadeira cidadania - de grão-paraenses, de amazônidas.
Maus paraenses que se esquecem da lição da história.
Maus santarenos e maus paraenses que se esquecem que o Grão-Pará já foi um país independente e que, se faz parte do Brasil atual, é porque foi constrangido, obrigado a isso.
Que não percebem que a divisão do Pará enfraquece a sua verdadeira, única e profunda identidade - a de grão-paraenses.
Que não percebem que é somente nesse fundo ideológico comum a todos os amazônidas, nessa idéia adormecida, que estão suas melhores chances de porvir.
Dividam o Pará, maus paraenses, maus santarenos, e terão mais 150 anos de adormecimento.
E quando falo em Grão-Pará não estou falando em independência política da Amazônia - uma idéia estapafúrdia no mundo atual, o qual corre em sentido inverso.
Estou falando em soberania, dignidade cultural, no orgulho saudável de que tanto precisamos para reivindicar nossos direitos de amazônidas e crescer com felicidade e justiça.
Estou falando, em síntese, de identidade.
A soberania do Pará, neste momento, tem a oportunidade de renascer em Santarém, Óbidos, Alenquer, Monte Alegre, Oriximiná.
Da mesma forma como nasceu no Tapajós o grito de guerra de Ruy Barata: “Eu sou de um país que se chama Pará”.
É todo o Tapajós que grita, na sua essência: “Eu sou de um país que se chama Pará”.
E não teremos nem dignidade e nem identidade se nos dividirmos.
O Pará não se divide, da mesma forma que nossa dignidade, nossa soberania, nossa cultura não se dividem.
O Pará não se divide. O Pará apenas se une. Porque é na união, e não na divisão, que encontraremos o rumo do futuro".