João Augusto Oliveira (ex-prefeito de Oriximiná) http://joaoaugustooliveira.zip.net/

Os municípios do baixo Amazonas sempre primaram pelo fabrico de especial farinha de mandioca. Mas a que era importada de Belém, que lá chegava adquirida por castanheiros, seringalistas, etc. para abastecer os extratores que trabalhavam na mata, os quais não dispunham de opções, deixava muito a desejar. Era por nós conhecida como farinha seca. "Ruim" mesmo, só consumida em raras ocasiões, na falta absoluta da nossa.
Ocorre que, nos primeiros anos da década de 60, a região experimentou uma das maioresestiagens. Em Oriximiná, então, não chovia quase nada. Logo a safra da mandioca passou a ser aquém das nossas necessidades, com o que a produção da saborosa farinha foi duramente atingida, causando sérios problemas à alimentação da população.

Todos reclamavam, fazendo com que a prefeitura municipal, entre outras medidas, proibisse a saída da farinha local, numa tentativa de reter toda a escassa produção, para atender primeiro a Oriximiná. Pouco ou nada adiantou. O problema se agravava e a admistração municipal teve, então, que comprar, em Belém, a até então "farinha ruim", que chegando a Oriximiná, foi de certa forma recebida com alegria.
No outro dia, logo cedo, foi iniciada a venda para a população, no galpão do trapiche Municipal. Apenas 2 litros para cada um, até que chegasse a outra embarcação que traria mais farinha.

Ocorre que, algum espirituoso conterrâneo resolveu "jogar farofa" na aparente saída "vitoriosa" do prefeito, que era este pobre escriba: farinha espoca bode! Dizia em altas vozes o amigo (não seria da onça?), que completava: não existe nenhuma vantagem trazer para Oriximiná essa "mardita" - "mardita mesmo" -, essa farinha espoca bode.

Aí começou a maior gozação, chamando de "espoca bode" a todos os que adquiriam o produto. Posteriormente, ultrapassando as fronteiras do município, o termo passou a designar os oriximinaenses, disseminando-se, sobretudo em Obidos, município com maior contato com os já "espoca bodes".

No entanto, a história tem origem a bordo do "Barão de Cametá", saudoso navio que formava a frota dos "gaiolas", que navegam ligando todas as nossas cidades, de Belém a Manaus, sendo que uns iam até ao Acre. No referido barco, existia um bode, que era "cria" da tripulação e fazia todo o percurso da embarcação.

Em Faro, segundo contavam, o animal conseguiu furar um saco da farinha de Belém e comeu bastante. Logo em seguida, com sede, bebeu muita água. E ai? O inacreditável teria ocorrido: o bode explodiu. Isto mesmo, explodiu. Assim desqualificavam a farinha de Belém,
atribuindo a ela, pela má qualidade, até o "poder" da "explosão" do bode.
A primeira "vítima" que passou a ostentar o apelido, como não poderia deixar de ser, foi o responsável pela compra da farinha em Belém, que era o prefeito. Desde então passei a ser chamado de prefeito "espoca bode".

Era a maior caçoada, sobretudo quando a gente chegava em Óbidos. E quando tinha algum amistoso futebolístico, dava para achar muita graça. Em uma ocasião, assistindo a uma partida entre Oriximiná e Obidos, no estádio General Rego Barros, um pouco antes do inicio do jogo, não é que um "gozador" entrou, puxando pelo meio do campo, um enorme bode, arranjado sabe-se lá onde. Imaginem só!

De outra feita, iniciava a campanha eleitoral de 1966, sendo eu um dos candidatos à Assembléia Legislativa do Estado do Pará. Em Oriximiná, para os "contrários", eu era o "espoca bode" e nos demais municípios também. Levando tudo na gozação, resolvi explorar politicamente o apelido.

No primeiro comício que fiz em Óbidos, onde sempre me foi dispensado muito apreço e consideração, estava eu falando em frente à casa do saudoso ex-prefeito Lucas Menezes, quando no fervor da falação, todos silenciosamente ouvindo, eis que se ouve aquela voz grave e forte, do meio da multidão, gritando: “Cala a boca espoca bode!” Olha, foi uma risada só. E eu, passado aquele momento de surpresa, achando muita graça, falei: “Amigo querido, espoca o bode e outros bichos, mas espoca também as urnas (naquele tempo de lona), com votos para o candidato espoca bode”. Fui um dos mais votados.

E assim, assumimos o carinhoso "espoca bode". Na minha avaliação, esta brincadeira serviu até para estabelecer maior grau de amizade e intimidade entre Oriximiná e Óbidos, cuja rivalidade, por exemplo, no futebol, que era grande. Hoje não, todos são amigos e muito ligados uns aos outros. Afinal, Oriximiná é "filho" de Óbidos.