Expedição permanente da Amazônia  executada pelo Departamento de Zoologia da Secretaria de Agricultura do Governo do Estado de São Paulo e dirigida por Paulo Vanzolini. Memória da Construção das Embarcações “Lindolpho R. Guimarães” e “Garbe”, em Oriximiná, Pará, 1967

Paraguassú Éleres

Este relato registra fatos públicos nos quais acidentalmente participei. Estava eu na ocasião em que aconteceram. Por  outro aspecto, à época dos eventos não tive a intuição, a intus legeres, no dizer latino, do que historicamente poderiam significar e que anos mais tarde seriam comparados à aventura espetacular, televisiva, de Jackes Custeau, quando no VII Congresso  da União Mundial de Agraristas Universitários – UMAU, sobre Direito Alimentário (2002), na Scuola Superiore Studi Universi e  Perfezionamento Santa Anna, Pisa, Itália, onde apresentei trabalho Aflatoxina na Castanha-do-Pará, um professor disse-me que  a Expedição Permanente da Amazônia, de Vanzolini, foi mais  importante que a de Custeau, considerando os resultados cientí- ficos que produzirá, enquanto que Custeau apenas deu mais a  conhecer ao mundo a geografia e fauna da bacia hidrográfica do  rio Amazonas e Região Amazônica, inserta nos países setentrionais da América do Sul.

Oriximiná, PA, 1965. Ali morei de 1968 a 1970. O agrônomo Humberto Marinho Koury, meu ex-professor de História Natural no curso de Agrimensura e então superintendente no Pará  da Caça e Pesca, órgão do Ministério da Agricultura, depois integrada ao Ibama, disse-me que na pensão de Dona Maria  José Guimarães, onde se hospedava a maioria das pessoas em trânsito, estava um biólogo da Departamento de Zoologia da  Secretaria de Agricultura do Estado de São Paulo. Koury o levou em casa, e foi assim que conheci Paulo Emílio Vanzolini, de  quem sabia ser o autor de “Ronda” e “Dá a volta por cima”, esta, cantado por Noite Ilustrada.

Vanzolini viajava a caminho de Faro, município no extremo ocidental do Pará, margem esquerda do Amazonas, onde iria  preparar pesquisas de campo sobre peixe-boi, e no vôo BelémSantarém conversou com um empresário de Juruti, Gladstone,  que lhe falou das tartarugas do Trombetas e seus tabuleiros e  onde, em 1963 a população (hoje, dir-se-ia “sociedade civil organizada”) saiu em passeata nas ruas de Oriximiná, protestando  contra a abusiva, ainda que não ilegal, caça de tartarugas feita  por comerciantes e autoridades locais, que lotavam os barcos e  as vendiam em Belém, em especial no mês de outubro – coincidentes época da desova dos quelônios e a festa do Círio de  Nazaré, na capital, onde a iguaria era consumida livremente na  “Barraca da Santa...”. No curso de um Congresso sobre Meio  Ambiente, em Belém (1992) escrevi um artigo sobre esses fatos.  (Anexos 01, 02). Da conversa com Gladstone, de Santarém  Vanzolini seguiu para Oriximiná.

Participei desse movimento e sugeri um “bloqueio” fluvial,  à montante da cidade, na ilha Jacitara, aproveitando que naquele ano, 1963, ocorreu uma grande estiagem (03) e com as  águas baixas só o canal sul dava calado para embarcações mé- dias. O bloqueio foi feito em duas noites. Na primeira, 34 barcos  formaram a “frota”; na segunda, 60. Os barcos que baixavam o  Trombetas eram abordados e se levavam quelônios eram apresados. No dia seguinte, em frente à cidade, eram jogados no rio  mas ficavam flutuando (de “bubúia”, no falar caboclo). A Prefeitura fretou uma embarcação para comboiá-los cerca de 70 km  rio acima, até o tabuleiro da praia do Daniel, onde desovavam. A Caça e Pesca montou guarda no tabuleiro, depois substituída  pela estação do IBAMA, e hoje integra a Reserva Biológica do  Trombetas.

A partir daí, quando ia a Oriximiná Vanzolini fazia contato, e em setembro de 1965 seguiu para as terras de minha sogra, no Trombetas, estabelecendo-se no barracão sede do lago  do Jacaré, rio acima da praia do Daniel (o tabuleiro, estendiase de terras dela) parte de um grupo de castanhais (Bertholetia excelsa) nos rios Cuminá (Óbidos), e entre-rios Trombetas, Igarapé Paraíso, que liga com o lago Erepecú (Oriximiná). Vanzolini  ficou coletando na região do “Jacaré”, de onde escreveu (04)  pedindo algumas coisas junto ao Dr. Darcy Albuquerque, então  Diretor do Museu Paraense Emílio Goeldi e no retorno falou-me  de seu projeto para uma EXPEDIÇÃO PERMANENTE DA AMAZÔNIA a ser montada pelo a Departamento de Zoologia da Secretaria de Agricultura do Governo do Estado de São Paulo e eu  poderia contribuir, dada a minha experiência na região e forma- ção como artífice em marcenaria e que pesquisava sobre carpintaria naval nos estaleiros de Oriximiná (05 - A, B, C, D, E).

No final de 1965, Vanzolini escreveu (06, 06-A) propondo-me projetar e administrar a construção de duas embarcações com 45 e 50 palmos (respectivamente cerca de 11 e 13  metros) a serem feitos em itaúba (laurácea comum na região)  que seriam a plataforma móvel da expedição. Seguiram-se correspondências sobre o assunto (cartas manuscritas, telegramas)  inclusas as de. Darcy Albuquerque e do biólogo Heraldo Britsky  e então dei início ao projeto e construção das duas embarcações  (07, 08, 09, 10, 11, 12). Numa das viagens de Vanzolini a Oriximiná para assistir a construção das embarcações, acompanhou-o o filho de Darcy Albuquerque, Mano, e o antropólogo Eduardo Galvão (20) - “Santos e Viagens”, ”Encontro de Sociedades”, que eu conhecia de Belém, ele e a mulher Clara (nome(nome da Biblioteca do MPEG) da casa do casal filósofo Benedito Nunes e Maria Sylvia Nunes, diretora do grupo de teatro amador Norte Teatro Escola do Pará, grupo do qual fiz parte até  1962, e que primeiro encenou (Recife, 1958) “Morte e Vida Severina”, de João Cabral de Mello Neto.

A ideia que presidiu o projeto das duas embarcações foi e  de que uma seria provida de motor MWM 39 HP e a outra destinada a trabalhos dos pesquisadores, guarda do material coletado e abrigo de pesquisadores. A embarcação motorizada, batizada com o nome do cientista Lindolpho R. Guimarães, foi por  mim projetada em Oriximiná (13, 14, 15, 16, 17 18, 19, 20, 23).  Sem convés, a função era rebocar o barco laboratório, Garbe,  atracados nas laterais sob suporte duplo de pneus usados para  evitar transferir a vibração do motor e assim, intuitivamente, evitamos o que ocorreu com o navio de Alpha Helix, de uma expedição norte-americana, socorrido pela frota do DZSA, no rio Negro, a montante de Manaus, o qual, afetado pela vibração, teve  descoladas lentes dos equipamentos óticos.

Do barco Lindolpho R. Guimarães só restou em meu  acervo o desenho da parte da popa (13), com detalhes da instalação do motor. A planta, escala 1:10, foi desenhada sobre armação de tábuas brancas, de marupá e ficou no “telheiro” do  estaleiro de mestre Baranda que o construiu (17, 18). A montagem do motor MWM 39 HP foi feita pelo mecânico Antonio Guerreiro (“Diabo Solto”). Quando o LRG já estava pintado, o letrista grafou o nome, acentuando o til de “Guimarães” no “E” e não no  “A”. Vanzolini manteve a troca, porque representava uma característica regional...

Sobre a montagem do motor há um fato a registrar, que é  o da posição do calço chanfrado, o fixo (chamado “fiche”). Trata se de peça de madeira que coloca o motor em posição inclinada em relação ao plano da linha d’água da embarcação e esse inclinado é alcançado colocando-se a máquina, tantas vezes  quantas forem necessário, até chegar à forma angular certa sobre as longarinas paralelas à sobrequilha. Por vezes a operação  põe-e-tira máquina é feita com base em achas de lenha, sendo  retiradas ou postas, uma por uma, até chegar à altura e nível  ideal, e a operação se repete até alcançar a posição exata. No  caso do LRG eu disse a mestre Baranda que o desenho (13)  mostrava o ângulo e forma certos. “Não dá...”, retrucou ele.  “Vamos tentar”, ponderei. E assim fizemos, medindo com a escala e a suta num desenho escala 1:10, e de uma só vez chegou-se à forma ideal do chanfro do “fiche”... Valeu a “técnica”.

O Garbe, 65 palmos (cerca de 14 metros) de quilha (21,  22, 23, 24) tinha convés, camarote e beliche, banheiro, cozinha,  escotilha central para proteger das águas o material coletado,  guardado no porão (24), e para os trabalhos dos pesquisadores  projetei mesas articuladas no centro que eram levantadas no  teto, (24) deixando espaço livre no convés e sua construção  resultou da adaptação de um batelão feito para transporte de  gado, que incendiara na parte superior. Acompanhando um fazendeiro local que o queria adquirir, em junho de 1964 fui a Faro  avaliar a estrutura restante. Da linha d’água para baixo, o barco  estava intacto e poderiam ser recompostas as cavernas e falcas  do costado, o que e comprador fez e assim, quando Vanzolini  propôs construir as duas embarcações, o antigo barco queimado  já estava reconstruído, integralmente recuperado o casco, e então, para ganhar tempo, sugeri adquiri-lo, após avaliar as dimensões do cavername e as falcas novas do costado e sobre  essa parte projetei as obras de superestrutura, e antão Vanzolini  autorizou a compra (25). Para a construção das obras de superestrutura, chamadas obras mortas, contratei mestre Ary Silva, o  mesmo que no final dos anos 80 seria o palestrante numa oficina de estudantes da USP, do curso de Engenharia Naval, mostrando-lhes como é que alguém, sem formação acadêmica e  conhecimentos teóricos de Física, Ciência Náutica, Geometria  no Espaço e sem saber é que é superfície de carena, flutuabilidade e outras coisas mais, sabe construir com madeira bruta  tirada da floresta um artefato de grandes dimensões que flutua e  navega pelos rios da Amazônia e do Brasil.

Durante as campanhas da expedição em geral o Garbe ficava atracado, fundeado, em lugares seguros na margem dos  rios e/ou lagos para os pesquisadores trabalharem o material de  fauna e flora coletados, enquanto o Lindolfo R. Guimarães seguia livre, escoteiro, levando um canoão provido de motor de  popa e uma canoa pequena, a remo. O objetivo era adentrar o  quanto fosse possível nas cabeceiras, igarapés e furos, para as  pesquisas de campo, plotando os locais das coletas em mapas  da região (na época não havia GPS). Depois de prontas as duas embarcações a mim coube indicar dois elementos da tripula- ção, que trabalharam até o final da expedição : o comandante,  Filomeno Marinho, atualmente morando em Macapá, e o cozinheiro, Chico, remanescente de Quilombo que se formou no  séc. XVIII na mesopotâmia Trombetas-Curuá (Alenquer), e que  fora cozinheiro da família de minha mulher. Não tive mais notí- cias de Chico, que em 1967, quando iniciou a EXPEDIÇÃO, estava com mais de 60 anos.

Dessa época, além dos fotogramas que tenho em meu  acervo e do exemplar do “Manual de Coleta e Preparação de  Animais Terrestres e de Água Doce” (29) usado pelos taxidermistas e pesquisadores coletores de campo, ficaram lembranças de fatos marcados pelo inusitado. Rememoro alguns.  Certa feita Vanzolini deu-me um livro de Química, de Linus Pauling, e falou-me sobre seu trabalho em biologia e da sua “Teoria dos Refúgios“, de como cada pesquisador vai preenchendo esse  enorme mosaico de informações, que nunca completa, e exemplificou numa espécie de lacertílio, uma lagartixa, como se diz no  interior, de uns 8 centímetros, cor marrom e azulada e que, segundo ele, era endêmica na América Central e México. Creio  que a descoberta o surpreendeu pois a curuminzada de Oriximiná ganhou dinheiro trazendo dezenas daquelas lagartixas azuis  e marrons, iguais às que eu já vira nas matas e capoeiras das  muitas demarcações que fiz, de Alenquer a Faro.

Noutra ocasião, em Oriximiná, fomos ao comércio à procura de um caderno comum para notas e um comerciante italiano cobrou três vezes mais que o preço corrente. Vanzolini pagou, mas observou que iria comunicar ao Vaticano que ele, comerciante, morava em Oriximiná. “Por que ?...”, perguntou. “É  que Cristo morreu entre dois ladrões. Um foi por céu e o outro  ninguém sabia onde estava...Vou dizer que ele está aqui em Oriximiná....”, respondeu. Adaptei a irônica piada de Vanzolini em  palestra que fiz sobre Terrenos de Marinha, num Congresso de  Direito Histórico, na Universidade de Ipatinga, MG (2008), quando um palestrante sobre Direito Penal afirmou que a lei só beneficia o vilão, o bandido, dado os muitos recursos para protelar as  ações, e era por isso que em São Paulo havia fulano de tal, e  no Pará fulano de tal e nominou um senador paraense eminente  ficha suja. Na adaptação que fiz o ladrão enganou Jesus prometendo que iria para Belém, e “Jesus pensou que era Belém de  Judá, mas o ladrão foi para Belém do Pará...”

Um fato diz respeito a muiraquitãs, ocorrentes na região  que vai do Tapajós ao Trombetas e Nhamundá, pois junto com  um “machado de pedra”, dei a Vanzolini um muiraquitã em forma de batráquio, de cor marrom esverdeado, que me fora dado numa viagem a Faro. E ainda sobre muiraquitãs cabe lembrar o caso de um cidadão de Oriximiná, João Guerreiro, dono de uma coleção desses objetos. Quando Getúlio Vargas, já instaurada o Estado Novo, visitou Belém, manifestou vontade de  ver a coleção, da qual ouvira falar, Guerreiro fugiu para Mosqueiro (Ilha balneário ao norte de Belém) para não ter de recusar um  pedido do ditador.

Sobre muiraquitãs lembro de caso ocorrido em Faro, cidade que em junho de 1966 fui topografar, e ali morava Dona  Brunildes Rossy, de família tradicional, famosa por ter na cole- ção de jóias um “colar com doze muiraquitãs...”. Quando ouvi a  notícia, imaginei o tamanho e peso do colar, vez que em média  um muiraquitã mede cinco centímetros e a jadeíta, mineral de  que são feitos, é uma rocha pesada. Na viagem a Faro fiz contato com Dona Brubildes, onde um irmão, que me contratara, era  prefeito, e numa conversa de cadeiras na calçada, sábado á tarde, à margem do Nhamundá, ela me falou do colar e se eu o  queria ver. Mostrou-me duas raridades: uma moeda de prata  datada do século XVIII (só era visível um “17...” com inscrição  em espanhol, que fora encontrada na demolição do soalho da  casa de seu pai (ali, onde estávamos). Além disso, havia um  colar de esferas de vidro, tido como de muiraquitãs.  –

“Não são lindos esses muiraqutãs ?...” interrogou Dona  Brunuildes.

Vagueei um pouco e disse, sem rodeios: “Não são muiraquitãs... E então falei do que sabia sobre a matéria, que em  verdade aquilo não era um colar, mas uma pulseira de esferas  de vidro, encastoadas por argolas de ouro e ligadas por uma  fina corrente (trancilim), também de ouro, artesanato encomendado por seu pai numa ourivesaria de Belém. As esferas de vidro provavelmente foram fabricadas no norte da África e levadas  para a Espanha e Portugal quando os mouros ocupavam a península Ibérica. Disse mais que, quando criança, em Alenquer minha terra, eu brincava com petecas de vidro chamadas de colombianas, em geral de cor neutra, com riscas coloridas, iguais  às do colar e só mais tarde soube que há séculos os árabes já  dominavam - e nisso eram hábeis - a técnica de fundição do vidro, de maneira que essa técnica se espalhou pela península  ibérica a quando da invasão pelo mouros, que dominaram a região até o século XIII.

Sobre o histórico que fez Dona Brunildes das esferas de  vidro do colar, havia o fato de que foram encontradas na praia do “Espelho da Lua“, um local de paisagem linda, margem direita  do rio Nhamundá, estado do Amazonas, onde, em forma de arco, a praia se estende após a descida brusca do morrete que a  encima, e esse local tem a tradição de ter sido ponto de encontros amorosos entre espanhóis e índias da região, posto que,  pelo Tratado de Tordesilhas, aquela região era território espanhol onde, de quando em vez, são encontrados vestígios da  presença espanhola, a exemplo de restos de uma fundição de  bronze e a pessoa que encontrou num tributário do Nhamundá,  ao raspar o objeto imaginou fosse enorme pepita de ouro....

Sempre que os barcos da Expedição vinham das campanhas, aportavam no trapiche de casa, em Oriximiná. Lembro que  certa vez do biólogo Hans desceu do barco e foi para casa tomar  o café da manhã. Ofereci-lhe jornais e revistas recentes mas  Hans recusou porque não adiantava, pois não iria mudar o curso  das coisas...

Certa feita, Cecília, minha mulher, ouviu gritaria na rua da  praia, onde morávamos, e da janela viu muitas pessoas assistindo um cardume de botos (“tucuxí”) agitados, em torno de um  membro do grupo, como querendo mantê-lo à tona. Saltavam  ecoando grunidos, mas ao final foram embora deixando o moribundo na beira da praia, onde morreu. Era uma fêmea, grávida.

Daí há pouco alguém colocou-a numa canoa, levou e jogou-a no meio do rio, de onde foi levada pela correnteza. Dias  depois, quando lhe contamos o caso, Vanzolini disse que poderíamos tê-la enterrado na areia para aproveitar o esqueleto. Mas  éramos todos ignorantes na matéria... Evento curioso deu-se com Denise, estagiária de Antropologia, que incentivara a coleta de restos de cerâmica arqueológica comuns na região, chamadas “caras” de índios (dita civiliza- ção Konduri, estudada por Peter Paul Hilbert, 1952). Foi uma  farra. A curuminzada trouxe e Denise pagou por muitas caretas.  Quando as vi, mostrei-lhe que eram peças fabricadas com cacos  de telhas de barro cozido...

Caso complicado deu-se quando certa feita o piloto Jorge,  do barco que nos domingos á noite fazia a linha Oriximiná- Santarém, e retornava na terça, de manhã, trouxe-me carta do  prefeito de Melgaço (região do Marajó) pedindo que ajudasse  Manuel, filho de um amigo dele, do interior do Amazonas, que  trabalhara na expedição do Dr. Paulo Virgolino e ficara em Óbidos e não tinha a quem pedir ajuda, e como eu era o representante da expedição, em Oriximiná, que, por favor, o fizesse.

Final da tarde desse dia chega um jovem de nome Manuel que estava á minha procura para saber se eu recebera uma  carta, etc, etc... “É, recebi. Esta aqui e o amigo de seu pai pede...”. Aí Manuel caiu de joelhou, as mãos postas na direção do  por-do-sol e chorou clamando : “Minha Nossa Senhora de Nazaré. Valei-me. Foi Deus que me trouxe até o senhor... e bla, bla,  bla...”. E contou que trabalhou com Dr. Paulo Vergolino, caçando  gato maracajá nas matas de Óbidos e ficou com uma espingarda calibre 38, que ia me entregar, se eu pagasse as diárias que  Dr. Paulo Vergolino lhe devia. Respondi que não era seu representante, que sabia que na expedição não lembrava se a expedição usava arma de fogo daquele calibre e não “caçava” gato  maracajá e também eu não tinha dinheiro nem autorização para  pagar alguém em nome da expedição... Mas no final, convidei-o  para jantar, emprestei-lhe uma rede para dormir e disse que no  dia seguinte fosse a Óbidos onde venderia as peles, etc, etc...

Na hora, estava em meu escritório uma freira que fora ver  a planta de acréscimo do Colégio, que eu projetara. No dia seguinte ela iria a Óbidos e Manuel poderia ir de carona e mandar  a espingarda cal. 38. “Tomara que não digam que sou uma freira  guerrilheira...”, brincou, mas quando voltou no dia seguinte a  freira não trouxe a tal arma e disse que o Manuel da carta não  foi com ela no caminhão. Dias depois o caso se esclareceu.  Jorge, o piloto, disse-me que na viagem para Santarém o “Manuel“ (em verdade um gatuno com várias passagens pela  Polícia de Oriximiná, e que já havia trabalhado comigo, peão na  demarcação que fiz de uma quadra em Oriximiná, para constru- ção de casas para leprosos, trabalho que meses antes fizera  para pároco frei Fortunato). Pois bem, o caso é que na viagem  para Santarém “Manuel” conversara com Denise, que lhe contou  sobre a expedição. Daí a ideia do golpe. Quando a Polícia prendeu Manuel, o delegado o levou em casa para identificá-lo, perguntei se conhecia e como era Paulo Vanzolini. “Conheço. Dr.  Paulo Vergolino fuma cachimbo, é alto, magro e louro...”

Em dezembro de 1970, à época em que implantava a topografia da estrada Pucuruí-Jocojó, reencontrei Denise no campo de aviação de Gurupá, passageira de um Táxi-Aéreo a caminho de Santarém.

Prontos os barcos, foi feita a primeira viagem a Santarém  para regularizar na Capitania dos Portos (26). À noite, o biólogo  Heraldo Britsky jogou a tarrafa e coletou alguns peixe agulha e disse-me que aquela era uma espécie, diferente das que já pesquisara. Nessa mesma viagem, de madrugada entrou no Garbe um amigo do alheio e levou uma espingarda de fabricação belga, marca Sauer.

Finalmente, Vanzolini decidiu testar os barcos numa viagem para Belém e sugeriu que Cecília, minha mulher, fosse para consultar um médico (estava gestante e já sofrera dois abortos provocados por brucelose, diagnosticada em Belém, por um  médico e fazendeiro no Marajó, onde a doença era comum). Em  maio de 1967 foi empreendida a viagem (27) que durou cinco  dias, não viajando á noite. Em Santarém foi contratado o prático  Pedro, creio que recomendado pela Capitania dos Portos local.  Tudo ia bem, mas no terceiro dia acordei com os barcos já em  movimento, todavia com o Sol se erguendo na popa do Garbe,  quando deveria ser pela proa pois deveríamos estar descendo o  rio Amazonas, de Oeste para Leste... Ocorreu que no través de  Prainha atracamos para pernoitar, numa enseada na margem  direita do Amazonas e durante a noite a maré “virou” e inverteu a  posição das embarcações e quando Pedro partiu, ainda madrugada, não notou. O bombordo virou boreste ... Vanzonili o apelidou de “Pedro Maré”.

Lembro vagamente de uma pessoa contratado por Vanzolini, vindo de Goiás e dito como expert em pesca no Araguaia.  Certa feita o expert foi em minha casa propor-me a venda de  uma espingarda CZ, tcheca, que estava em Goiânia, mas precisava urgente do dinheiro... que eu dei, para recebê-la quando  passássemos em Goiânia na viagem que levaria o primeiro estoque de coletas de fauna e flora, viagem feita em quatro dias,  de Belém a São Paulo, numa Kombi do DZSASP, da qual participei juntamente com Dionísio (um ex-goleiro de futebol) e Isauro  trafegando pela Belém-Brasília (28) ainda não asfaltada até metade de Goiás. Em Goiânia o expert em pesca no Araguaia e vendedor de espingarda escafedeu-se e eu segui de mãos vazias...

O segundo semestre de 1967 foi para mim muito movimentado. Na volta de São Paulo, fui contratado pela firma de  engenharia Amazontec com a missão de analisar documentos  dominiais fundiários das terras que a firma iria comprar para projeto madeireiro a ser aprovado na Superintendência do Plano de  Valorização Econômica da Amazônia - SUDAM, e logo em julho  fui contratado para coordenar o setor de topografia do Projeto  Jary, mega empreendimento que Daniel Lwduick iniciara naquele mês. Em 15 de outubro nasceu meu primeiro filho, Fábio, e  daí a dois dias um ônibus atropelou e matou sua avó materna  em frente ao hospital...

Em janeiro de 1968 voltei para Oriximiná, onde fiquei até  agosto de 1970 gerenciando os castanhais do espólio de minha  sogra e, a partir daí, poucos foram os contatos com Paulo Vanzolini e mesmo com a expedição que a essa altura já estava em  lugares distantes, pesquisando no Madeira e outros rios acima.  Soube apenas que o motor MWM 39 HP fora trocado, dada a  sua pouca potência. A vida continuava a mesma naquela Oriximiná pacata, onde quem tinha um rádio “trangloble” ouvia melhor a “Voz da América” notícias importantes como a morte de JF  Kennedy, a descida de Armstrong na Lua, ou no meio da noite  ouvir a voz embargada do locutor da Rádio Santarém anunciar:  “Até que enfim morreu o papa João 23...”

Nesse meio tempo a única notícia que tive dos barcos da  Expedição Permanente da Amazônia foi por um engenheiro que  me falou de dois barcos, um a reboque do outro, que ele viu no  porto da Fundação SESP, em Belém, onde trabalhava, e como  sabia que eu me interessava por indústria naval regional, comentou que aquele era o tipo de embarcação que o SESP deve ria adotar, porque era prática, etc, etc, e enumerou vantagens de  viajar em embarcações como aquelas pela Amazônia. Em 1989, quando a imprensa de Belém noticiou a Ação  Popular que ajuizei contra imobiliárias e construtoras que queriam “cercar” com espigões o Museu Paraense Emílio Goeldi, para desfrutar a verde paisagem, reduzindo a insolação sobre as  árvores, algumas já afetadas pela falta de sol (ação julgada procedente e decretada uma faixa de 200 metros no entorno da  quadra do MPEG na qual é proibida a construção de prédios) fui  contatado pelo ex-comandante Filomeno Marinho.

Soube então que a EXPEDIÇÃO PERMANENTE DA  AMAZÔNIA encerrara as atividades em 1987, os barcos Lindolpho R. Guimarães e Garbe foram entregues para o Instituto  Nacional de Pesquisas da Amazônia – INPA, em Manaus, e só  restavam os trabalhos de pesquisa das cerca de vinte mil espé- cies coletadas. Desde então não mais soube das amazônicas  embarcações de madeira de cujas construções, a quase meio  século, participei de forma ocasional, como na situação dita por  Paulo Vanzolini de que cada um tece, colabora com uma parte  de um grande mosaico de informações.

Belém, PA, 28 de abril de 2013  (dia em que faleceu Paulo Vanzolini)

http://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2013/06/Relato-Barcos.pdf