Hora de montar o cardápio do Círio. Um mês antes? Sim, um mês antes. Há quem more no percurso da procissão e cumpra a tradição de abrir a casa para parentes e amigos; estes vão precisar de alimentos leves e sucos. Há quem faça almoços, assim, no plural: o almoço da família matriz, em que irmãos, chefes de família eles também, se congraçam com os pais, na sexta ou no sábado; e o almoço da própria família, no dia da festa. E há, naturalmente, o almoço do dia.

As opções são paraenses, mas nem sempre típicas. Este século com mania de magreza e complexo de colesterol acaba permitindo (ou forçando) pratos ditos saudáveis, em que a gordura é reduzida ao mínimo. Não tem importância: o Pará permite.

Para começar, a comida para o lanche durante a procissão, preocupação de quem abre a casa para convidados. Pode ser um simples cafezinho, trazido de Limoeiro do Ajuru. Ou frutas: abacaxis de Salvaterra, jambos de Santa Isabel, laranjas de Capitão Poço, mangostão de Santo Antonio do Tauá, muricis de Afuá.

Delicadezas: alfenins de Alenquer, rosquinhas com a castanha do Pará de Marabá ou com a tapioca de Capanema. Sucos com o bacuri de Augusto Correa, o cacau de Altamira, a acerola de Aurora do Pará e o cupuaçu de Vigia. E água mineral de Terra Alta.

Conforme a hora, os aperitivos para quem reúne antecipadamente: bolinhos com piracuí de Santarém ou com surubim de Marapanim. Empadas com frango de Santa Isabel. Palmito de Muaná. Castanhas de caju de Tailândia. Queijo de búfala de Soure ou Peixe-boi.

O almoço tradicional leva maniçoba, feita com carne de porco de Benevides, maniva de Bonito e linguiças de Rio Maria. E patos de Cametá no tucupi de Maracanã com jambu de Marituba. Tudo acompanhado por farinha de Bragança e arroz de Palestina. E arrematado por açaí de Ponta de Pedras.

Um almoço mais leve pode conter costelinhas de tambaqui de Oriximiná, caranguejo de São Caetano de Odivelas, pescada amarela de Viseu, pirarucu salgado de Monte Alegre no coco que vem de Salinópolis. Ou pirarucu frescal de Conceição do Araguaia com bananas fritas de Itaituba. Como opção, filhote de Gurupá e camarões de Abaetetuba.

Cardápio vegetariano? Não seja por isso! Alfaces de Ananindeua, soja de Novo Progresso, massas de Castanhal, pepinos de Inhangapi, milho de Monte Alegre, tomates de Aurora do Pará. E palmito, desta vez de Breves. Com queijo de coalho feito em Traquateua.

Qualquer cardápio precisa de temperos. Não nos faltam. Pimentas: do reino, de Tomé-Açu, dedo de moça, de cheiro, malaguetas, do Acará; salsinha e coentro de Belém.

E qualquer cardápio precisa de sobremesas. Salada de frutas, por exemplo, à paraense, com abacate, abacaxi, abricó, banana, kiwi, laranja, mamão papaia, manga rosa, melancia e tangerina, temperada com suco de maracujá. Todas produzidas aqui. Cremes, mousses ou sorvetes de cupuaçu, bacuri, graviola, coco e maracujá. E, claro, nossos pastéis de Santa Clara com recheio de cupuaçu.

Minha Nossa Senhora! Quanta riqueza!

Ana Monteiro Diniz (http://amdiniz.blogspot.com.br/2013/09/o-cardapio-do-cirio.html)

Segunda-feira, 16 de setembro de 2013

Ana Monteiro Diniz, escritora e jornalista, nasceu em Oriximiná. Seus pais, Antonio Laureano Diniz e Elza Monteiro Diniz.