A UNIVERSIDADE PÚBLICA EM ORIXIMINÁ
Domingos Diniz & Siany Liberal
“O maior desafio para o sucesso de um empreendimento acadêmico é o alcance de sua autonomia. A excelência da autogestão dependerá de seu compromisso com a geração de conhecimento novo e sua crítica. Somente uma academia de excelência poderá fomentar transformações culturais, políticas e econômicas que uma sociedade necessita para crescer”.

CAPÍTULO 1:
Uma Parceria que Deu Certo

A disposição da Mineração Rio do Norte (MRN) em apoiar iniciativas de desenvolvimento sustentável em Oriximiná, motivou a elaboração de um convênio tripartite de cooperação técnica proposto pela Universidade Federal do Pará (UFPA), onde lhe coube como contrapartida a construção do Núcleo Universitário de Oriximiná (NOR). A Prefeitura de Oriximiná contribuiu nesta parceria com o apoio logístico e a contratação dos Cursos de Graduação ali ofertados desde sua inauguração em 18 de junho de 2005.

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Antes mesmo da inauguração do NOR, os cursos de Licenciatura em Ciências Naturais e Pedagogia da UFPA, avançavam em seu segundo ano de atividades, denotando o esforço antecipado da administração da UFPA em ofertar cursos de graduação na modalidade intervalar (funcionam somente no período de férias escolares) direcionados à formação de professores leigos que já atuavam na rede de ensino de Oriximiná.

A estes se somaram Licenciatura e Bacharelado em História e Licenciatura em Matemática, e de repente, estavam todos brigando por sala, pois as três únicas destinadas as aulas teóricas já estavam tomadas. Um começo motivador! A Universidade cheia de Oriximinaenses, Obidenses e Jurutienses, agora mais realizados, pois, podiam vestir a camisa dos primeiros universitários do NOR.

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Por conseguinte, a PMO entrou no ritmo da parceria garantindo o mobiliário do Campus, sua manutenção e operacionalização, além de contratar a oferta para oito turmas de sete diferentes formações: Pedagogia (1); Ciências (1); Matemática (1); História (2), Geografia (1); Biologia (1); Música (1). Como contrapartida da modalidade de ensino à distância (EAD-UAB) ofertado pela UFPA a PMO apoiou mais seis turmas: Biologia (2), Matemática (2), Química (1) e Administração em Gestão Pública (1), ao longo de oito anos. Um demonstrativo do investimento inicial é apresentado no Gráfico acima.

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A construção do Núcleo atraiu a oferta de outras modalidades de ensino superior, como o ensino à distância, por exemplo. Assim, a UFPA pôde praticamente dobrar a oferta de turmas, incluindo novos cursos, com o apoio do Ministério da Educação, sem praticamente nenhum ônus para o Munícipio. No gráfico ao lado se observa a evolução da frequência de alunos no NOR desde sua inauguração. Em 2009 o NOR alcançou seu pico de formação, reflexo da alimentação contínua da oferta de turmas pela UFPA. A diminuição progressiva dessa formação resultou da ausência total de oferta de Cursos em detrimento da transferência do NOR para a Universidade Federal do Oeste do Pará (UFOPA), inaugurada em novembro de 2009. Apesar de sua configuração multicampi, e do NOR reunir plenas condições de atender a oferta de até quatro cursos regulares e o mesmo número de cursos à distância.

As promessas começaram em 2007, no ato de inauguração, quando o Magnífico Reitor da UFPA, Prof. Dr. Alex Bolonha Fiúza de Melo, garantiu a disponibilidade de vagas para docentes e funcionários suficientes à implantação do seu primeiro Curso: Licenciatura e Bacharelado em Ciências Biológicas: Ênfase em Conservação de Águas Interiores (BAI), planejado prioritariamente para atender demandas de desenvolvimento regional. Depois, veio o projeto UFOPA, e o NOR ficou a espera da realização desse compromisso.

fig 3.jpg - 12.48 KbAcreditando na seriedade dos gestores, a MRN (2009 a 2010), atendeu as solicitações de ampliação do NOR, feitas por seu Diretor, Prof. Dr. Domingos Luiz Wanderley Picanço Diniz. Construiu duas salas de aulas e um biotério, este último especialmente desenhado para as condições climáticas locais com o objetivo de servir à criação de pequenos roedores destinados às práticas de pesquisa e ensino do BAI.

Uma vez construído o Biotério, havia a necessidade de equipá-lo para que pudesse funcionar em acordo com a legislação federal que rege a criação de animais de experimentação. A administração da UFOPA justificou que cabia a UFPA sua instalação argumentando o compromisso firmado por convênio com a PMO e a MRN. Novamente a UFPA honrou com seu compromisso, adquirindo o material permanente mínimo necessário ao seu funcionamento. Hoje a administração da UFOPA determinou seu status como Biotério Central de toda a Universidade.

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A PMO, na pessoa do prefeito Argemiro Diniz, construiu um alojamento, em 2005, com capacidade para atender dezesseis docentes, incluso, cozinha e refeitório. Este último foi adaptado para sala aulas com a ampliação da oferta de turmas a partir de 2007 (foto à esquerda). Ao seu sucessor, Luis Gonzaga Viana, coube honrar os compromissos assumidos, e assim o fez na expectativa de que a UFOPA assumisse o NOR de fato, não só de direito, a ela doado pela PMO desde novembro de 2011. Ainda nos dias de hoje a PMO contribui substancialmente para evitar o sucateamento do NOR.

Obviamente, um relato de breves palavras nunca expressaria a amplitude do esforço despendido pelas pessoas empenhadas no sucesso destes empreendimentos. Secretários municipais, diretores administrativos, serventes, auxiliares de serviços gerais, enfim, uma lista extensa de colaboradores ávidos para fazer crescer o primeiro Campus de uma Universidade Federal instalado em Oriximiná.

CAPÍTULO 2:
Integrando Pesquisa ao Ensino e a Extensão.

Quando o Prof. Dr. Cristovam Wanderley Picanço Diniz, enquanto Pró-Reitor de Pesquisa e Pós-Graduação da UFPA propôs a PMO a contratação do Curso de Letras em 1998, o fez ciente que estava semeando um sonho para todos os alunos que viam fugir às vistas a oportunidade de cursar uma Universidade. Cerca de apenas 2% dos egressos do ensino médio conseguiam esse privilégio, as expensas de muito sacrifício familiar.

O renascimento do Curso de Licenciatura em Ciências Naturais na UFPA, motivado por ele, tinha por objeto disseminar a ideia de educar para a ciência, com a inclusão do método científico na rotina escolar e familiar. O mote para o desenvolvimento intelectual de professores leigos a partir do pensamento experimentado na prática científica aplicada a relação ensino–aprendizagem.

Ciência em Oriximiná, quem diria...? O Prof. Dr. João Farias Guerreiro, outro ilustre oriximinaense diria. Empenhado em somar esforços para a consolidação do NOR como Unidade Acadêmica da UFPA, o então Pró-Reitor de Pesquisa e Pós-Graduação, trouxe pra si o compromisso de implantar no NOR um Curso de Graduação especialmente talhado para atender as principais demandas de capacitação científica e tecnológica visando o desenvolvimento da cadeia produtiva do pescado na região.

Engenharia de Pesca? Poderia ser, mas, que mercado de trabalho absorveria os egressos? A saída seria a Biologia aplicada à tecnologia de produção e manejo de pesca. Uma Biologia de Águas Interiores? Parecia mais adequado. Com esse perfil, formatou-se o BAI.

Uma comissão multicampi, presidida pelo Prof. Dr. Domingos Diniz, foi constituída para a elaboração do projeto pedagógico do curso. Os professores doutores: Ricardo Bezerra de Oliveira (Campus de Santarém), Lúcia Harada (Campus de Belém), Iracilda Sampaio e Horácio Schneider (Campus de Bragança) completavam a equipe de docentes pesquisadores.

Este trabalho durou dois anos (2004 a 2006) e culminou com a contratação do Curso pela PMO. Cerca de um milhão de reais foi investido na compra de materiais destinados à instalação de laboratórios e custeio de acesso e serviço docente para as atividades de ensino e pesquisa (trabalho de conclusão de curso). Um exemplo de contribuição da gestão municipal para o desenvolvimento social com qualidade de vida.

Entretanto, o grande diferencial desse Curso foi integrar pesquisa ao ensino e a extensão. O desafio era mostrar que era possível atender as atividades fim da Universidade num único curso de graduação. Um curso de Bacharelado em continuidade com a Licenciatura que superou todas as expectativas: Pedagógica, Científica e Extensionista.

Além da formação do graduado o Curso pôde atrair alunos da escola básica a uma formação científica precoce (a partir da 5ª série), à geração do conhecimento formal contextualizado para a formação escolar, e, à pedagogia para o aprendizado laico. Socialização do conhecimento gerado pelas investigações científicas com as comunidades do entorno dos projetos na forma de educação ambiental (Diagrama 1) .

O sucesso dessa empreitada se deveu ao Programa de Ação Interdisciplinar (PAI) lançado em 2008 (Diagrama 2). Um projeto de interlocução entre a universidade e a escola, empenhado em dirimir distâncias entre as duas realidades e garantir difusão plena do pensar acadêmico enquanto propulsão da qualificação do ensino básico. Em contrapartida, tratou de questões emanadas da relação ensino-aprendizagem como desafios para sua resolução e, aprimoramento didático-pedagógico de abordagens escolares para conteúdos técnico-científicos, como linguagem educacional. O sucesso dessa empreitada deveu-se igualmente ao trabalho incansável das equipes que se revezaram ao longo do tempo fazendo a interface NOR/Escola.

A estratégia empregada para o alcance dos seus objetivos seguiu o princípio de formação da PIRÂMIDE ACADÊMICA comumente utilizada por docentes pesquisadores nas universidades públicas, como esquematizado no Diagrama 3. No topo dessa pirâmide está o docente pesquisador. Em nível imediatamente inferior está o aluno de pós-graduação, depois o aluno de iniciação científica de graduação, seguido pelo aluno de iniciação científica do ensino médio e na base, o aluno do ensino fundamental. Cada nível tem um compromisso formador com o nível seguinte cumprindo um ciclo virtuoso de crescimento bidirecional, pois cada nível é motivado pela interlocução horizontal como vertical nos dois sentidos. Assim, cada projeto mãe construído pelo docente formador é subdividido por planos individuais a cada nível compondo um mosaico que é integrado a cada seminário de socialização dos resultados obtidos, bem como, o conhecimento abrangente do referencial teórico relacionado a cada pergunta científica individualizada nos planos de trabalho (vide Diagrama 4).

fig 5.jpg - 18.22 KbOs docentes pesquisadores do BAI vieram de Belém (UFPA,ICB), de Manaus (INPA) e de Santarém (Campus da UFPA). Uma contribuição interinstitucional além de multicampi. O pesquisador, invariavelmente se hospedava no alojamento, às vezes com sua equipe de pesquisa, quando o Projeto incluía Oriximiná como um de seus municípios alvo, como o caso do Pro. Dr. Cláudio Guedes Salgado, que incluiu Oriximiná no seu trajeto de investigação sobre Hanseníase no Pará. Na foto à esquerda, o Professor Cláudio aparece ao fundo à direita, atrás do grupo composto por seus orientandos de Pós-Graduação e alunos do BAI em missão científica na zona rural de Oriximiná.

Por conseguinte, as tarefas contidas na execução dos planos foram discutidas em cada reunião de trabalho, semanalmente, preferencialmente aos sábados.

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Os seminários de orientação foram agendados pelo docente orientador de acordo com a dificuldade e a premência do tempo de realização. No intervalo de dois meses ocorria a socialização do conhecimento com alunos da escola parceira selecionados para assistir um seminário apresentado pelos alunos do PAI (figura à direita). Os resultados acumulados durante o ano puderam ser socializados com a sociedade em geral nas feiras de ciências, quando toda a pirâmide acadêmica foi convidada a sua divulgação por meio de conferências, oficinas, minicursos, exposições, incluindo mostras de teatro, vídeos e jogos educativos, tudo o que foi produzido com o objetivo de promover educação científica, pesquisa, ensino e extensão.

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No Curso de Licenciatura e Bacharelado em Ciências Biológicas: Ênfase em Conservação de Águas Interiores, o PAI teve como base para funcionamento a pesquisa desenvolvida pelos TCCs. O referencial teórico do projeto, a prática investigativa e os resultados das pesquisas foram traduzidos para uma linguagem educacional com o auxílio de professores da equipe do PAI. Treinamentos específicos previstos em atividades didático-pedagógicas do percurso curricular prepararam os graduandos para tal. Assim, não só foram preparados para a prática de ensino, como para a construção de novos projetos pedagógicos, desenvolvendo como diferencial, a habilidade de adaptar a linguagem formal da área de conhecimento tema, explorada com o emprego de novas tecnologias didáticas desenvolvidas pelo grupo, incluindo os alunos objeto da monitoração. Com a liberdade para criar os alunos montaram peças teatrais, revistas em quadrinhos, jornais de ciência, jogos, dentre outros, tendo como base temas relacionados às suas pesquisas. Um novo conteúdo programático para a escola, sobre o ambiente estudado. O seu ambiente, que os alunos passaram a conhecer com a ótica do método científico, uma descoberta experimentada que será perpetuada na compreensão dos fenômenos naturais do seu cotidiano, por toda sua vida escolar, familiar e profissional futura.
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Uma avaliação preliminar desse trabalho foi realizada a partir de questionários aplicados aos alunos do PAI (365 entrevistados) e seus familiares gerando resultados muito promissores. A estratégia de seleção pelo maior aproveitamento escolar (média anual mínima 7,0) permitiu uma permanência do aluno ao longo de todo o percurso escolar a partir da quinta série do ensino fundamental, além de manter a renovação proporcional em torno de 50% a cada dois anos.

fig 9.jpg - 14.63 KbA atuação dos monitores enquanto estratégia pedagógica denotou a dificuldade em criarem alternativas além daquelas experimentadas na sala de aulas, mas mostrou que é possível enveredar por novos caminhos, como a experiência dialogada e vivenciada in loco. Que o planejamento pode antecipar ao aluno o que vai acontecer na próxima experiência e sua preparação afim de que seus objetivos sejam alcançados.

A média de três a quatro encontros por mês e duas a três horas por encontro, mostrou que os compromissos assumidos com seus monitorados foi levada a sério, pois os alunos do PAI teriam que apresentar seus relatórios de atividades à UFPA, e estes teriam que ser avaliados previamente pelo docente orientador. Melhor dizendo, o orientador não precisou temer o descompromisso do monitor porque ele foi cobrado por seu monitorado e pelo cronograma a ser cumprido de forma coletiva.

Ora, se o monitor planeja suas atividades de pesquisa, recebe apoio da instituição em material e logística para acesso ao local de trabalho, foi treinado na execução e compreensão do método científico, consegue dialogar com seus monitorados, teria que se mostrar uma pessoa bem humorada, organizada, séria e exigente. Aproximadamente o que mostrou nossa avaliação: o perfil de um professor pesquisador desejável, tanto para escola básica, como para a Universidade. Oferecer na escola além do que a escola oferece, esse é o ponto, uma escola capaz de gerar seu próprio crescimento sem depender de cartilhas, exclusivamente. O fato do grupo, ter que gerar resultados interdependentes, cria uma atmosfera colaborativa, onde a interseção necessariamente resulta da contribuição de cada conjunto de resultados em particular. Este tipo de composição aqui produzida se assemelha as colaborações em grupo e entre grupos de pesquisadores em nível global. O produto gerado não pode ser apossado pelo monitor, ou por qualquer outro elemento do grupo, de forma a permitir a experiência altruísta sem que qualquer dos envolvidos se aperceba. Essa experiência pode propiciar mudanças proativas ou reforços nas referências de valor cultural e social para suas relações interpessoais futuras.

De fato, essas mudanças positivas na valorização e busca do conhecimento, foram percebidas pelos familiares dos alunos do PAI. Eles constataram que o aluno do PAI estuda mais, lê mais, se comunica mais, e produz mais na escola. Significa dizer que seguir as recomendações preconizadas pelos parâmetros curriculares nacionais e pelas diretrizes curriculares dos cursos de graduação dá certo. Significa dizer que tudo o que se fez em Oriximiná não foi nada além do que está previsto na Lei de Diretrizes e Bases da Educação Brasileira (LDB, 1996), aliado ao cumprimento de objetivos fins das Universidades Federais em um curso de graduação. Considerando que o ensino de graduação é a razão primeira para a existência da Universidade, podemos dizer que este curso de graduação executado em Oriximiná cumpriu com seus objetivos primordiais. O curioso é que o desenho político pedagógico desse Curso é original, e estes relatos apontam soluções simples, cujo diferencial é o compromisso de pessoas e instituições em querer contribuir para um futuro melhor no extremo oeste da Amazônia paraense.

Em quatro anos de existência, o PAI treinou cerca de 800 alunos da rede básica de ensino, todos bolsistas de programas de iniciação científica do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) em parceria com Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Pará (FAPESPA) e a Secretaria de Educação do Estado do Pará (SEDUC). Treinou 44 alunos do BAI para seus TCCs a partir de 19 linhas de pesquisa instaladas no NOR e desenvolvidas por 14 docentes pesquisadores. Um quadro demonstrativo dessa rede de produção científica, em 2010, é apresentado abaixo, incluindo docentes orientadores e alunos de outros cursos de graduação ofertados no NOR:

Muitos estudos científicos resultaram do desenvolvimento dessas linhas de investigação. Desenvolvidos por graduandos do BAI, foram apresentados em reuniões científicas de âmbito internacional (7), nacional (22) e regional (53), totalizando 82 apresentações, quase 2 trabalhos por aluno/TCC (Painel 1).

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Dentre tantos produtos gerados: revistas em quadrinhos, jornal de ciência, peças teatrais, vídeos, jogos e oficinas (vide Painel 2) cremos que a sua maior contribuição extensionista foi a realização da Feira de Ciências Itinerante do PAI (Projeto: O PAI vai à Zona Rural) realizada com o apoio da PMO em parceria com o Projeto “Cultura de Bubuia” (apoiado pela MRN). Uma equipe de alunos e docentes orientadores do BAI levaram a comunidades ribeirinhas, algumas das atrações das Feiras de Ciências do PAI apresentadas na sede do município.

Na figura ao lado , vemos crianças de uma comunidade tradicional quilombola, apreciando imagens do mundo microscópico dos zooplanctons, coletados na frente da escola, no alto Rio Erepecuru (12 horas de viagem ao norte do município). Uma descoberta fantástica para essas crianças cujo mundo ainda se resume ao imaginário.fig 12.jpg - 33.68 Kb

Ao conhecer as atividades do PAI, algumas instituições, como o Instituto Nacional de Pesquisa da Amazônia (INPA) e da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), se motivaram a realização de duas Reuniões Regionais da SBPC em Oriximiná (2008 e 2012). Estas reuniões ficaram famosas pela densidade de inscritos (mais de 1000 por reunião), pela diversidade e qualidade de sua programação científica, educacional, artística e cultural (painel de fotos abaixo).

Uma homenagem foi prestada à equipe do PAI, em Recife (2013), na última assembleia geral da SBPC, como reconhecimento do trabalho de educação científica desenvolvido em Oriximiná. Uma manifestação da presidente, Dra. Helena Boncione Nader, num relato emocionante sobre a experiência por ela vivenciada em Oriximiná por ocasião da Reunião Regional de 2008.

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Nós da equipe do PAI só temos a agradecer essa manifestação de reconhecimento e torcer para que as instituições que nos apoiaram continuem apostando nesse trabalho, pelo qual temos o maior carinho e dedicação.

CAPÍTULO 3:

Uma Universidade de Todos para Todos

A distribuição funcional dos espaços acadêmicos do NOR foi baseada no princípio do uso coletivo. Seus laboratórios incluindo equipamentos e materiais foram compartilhados por todos os cursos e pesquisadores que deles necessitaram. O NOR serviu a diversas instituições públicas e privadas, segmentos religiosos, militares, políticos, enfim, todos atendidos sem distinção e, igualmente orientados à guarda zelosa do bem disponibilizado. O carinho com que os usuários trataram esse patrimônio se refletiu em sua ótima conservação. Fato é que o NOR completou oito anos e nenhum reparo foi efetuado em seus ambientes internos, incluindo pintura das paredes. Similar cuidado foi observado no uso dos equipamentos e materiais dos laboratórios; das seções administrativas, biblioteca, enfim, significando que a sociedade já nutria sentimento de valor pela sua Universidade, mesmo antes dela chegar. O educar dá o tom à atividade meio de forma a torná-la mais sociável e eficaz. Por conseguinte, o NOR longe de se elitizar, se tornou um espaço de livre acesso a população.

Os familiares dos alunos do PAI eram convidados a acompanhar as atividades programadas, inclusive as de campo. O objetivo era ter a família como um fator de bem estar, de segurança ao aluno, tranquilidade aos responsáveis e, credibilidade ao PAI, mas, principalmente, permiti-la conhecer o lado bom da Universidade: Sua seriedade como educadora. Seu compromisso moral e ético no formar, e formar bem seus futuros universitários. Essa sincronia com a família dirimiu receios inevitáveis, reflexo de uma cultura de privilégios, historicamente disseminada como forma de compensar às famílias de posse a se estabelecerem definitivamente no ermo amazônico.

Mais recentemente, com a chegada do Plano Nacional de Formação de Professores (PARFOR), fomentado dela CAPES/MEC e trazido ao Município pela UFOPA, tivemos a oportunidade de presenciar uma cena que reflete de forma singela o momento de transformação social que vive o Município de Oriximiná com a chegada da Universidade.

No momento da exposição de trabalhos científicos da II Feira de Ciências do PAI (2010), a avó, aluna do Curso de Pedagogia do PARFOR e a neta, aluna do PAI, apresentaram seus painéis uma ao lado da outra. O curioso é que ambas foram orientadas pelo mesmo pesquisador. Quando a família cresce intelectualmente, a sociedade se desenvolve, inevitavelmente. Um extrato do momento de intervenções positivas na educação básica a partir da universidade pública e gratuita.

O fato de a UFPA ter que transferir para a UFOPA todo o patrimônio recebido, a título de doação, da PMO e indiretamente da MRN, e reduzir seus compromissos à medida que a UFOPA se instalasse, não inibiu um grupo de docentes que colaborou no BAI a propor a instalação, com sede em Oriximiná, do Programa de Pós-Graduação em Biociências (PPG-Biociências) em parceria com o Programa de Pós-Graduação em Neurociências e Biologia Celular (PPG-NCBC) do Instituto de Ciências Biológicas (ICB) da UFPA. Uma vez autorizado seu funcionamento, o Mestrado começou a funcionar em abril com a Coordenação sediada no agora denominado Campus de Oriximiná da UFOPA. Por conseguinte, podemos dizer que a UFPA continua a ajudar Oriximiná agora em nível de Pós-Graduação, formando Mestres e Doutores. Quem diria, em tão pouco tempo vamos ver nossos conterrâneos Professores Doutores trabalhando na Universidade que eles ajudaram a erguer.

A particularidade deste PPG foi prever como capacitação formadora de seus mestrandos a orientação de alunos do ensino médio (PIBIC-EM) aos moldes do PAI. Por sinal, item da proposta elogiada pelos avaliadores do Comitê. Novamente, o reconhecimento da qualidade do PAI por parte dos docentes da UFPA, salvou o Programa de sua extinção.

No entanto, esta solução pode ter apenas efeito temporário, pois, se não há mais cursos de graduação em áreas afins ao PPG-Biociências, não haverá candidatos locais. Somente alunos de outras regiões estarão com curso de graduação nas áreas habilitadas a concorrer.

Mesmo que a UFOPA implante cursos de graduação em áreas afins em 2014, o PPG-Biociências aguardará pelo menos mais quatro anos para ingresso de novos oriximinaenses no Mestrado. Como explicar a sociedade de Oriximiná e de outros municípios vizinhos que existe um Programa de Pós-Graduação na região sem curso de graduação para alimentá-lo com pessoas da terra?

De que servirá avançarmos com projetos de pesquisa com apoio financeiro se não haverá alunos da terra para desenvolvê-los?

De que valeu todo o esforço de implantação e preparação do Campus em Oriximiná?

Temo pelas respostas, pois o tempo passou e seguirá assim até que uma nova administração da UFOPA tenha sensibilidade para gerar fatos positivos com vistas a perenizar a Universidade de “todos para todos” em Oriximiná e região.

AGRADECIMENTOS
João Guerreiro – UFPA
Prefeitos de Oriximiná:
Argemiro Diniz (2005-2008)
Luis Gonzaga Viana  
Siany Liberal – (Coordenadora PAI, UFOPA)
Miguel Canto – Prof. Escola Adélia Figueira
Valdeana de Jesus – Secretária do Curso
Mazé e Rosa – Alojamento do Campus
Inara, Vera Lúcia, Ana e Raimunda - Campus
Adalberto Val – Diretor do INPA
Marco Antônio Raupp – Ministro MCT (Presidente da SBPC 2008)
Vera Val – Coordenadora SBPC Regional de Oriximiná 2008
Rute Andrade – Secretária Geral da SBPC
Helena Nader - Vice em 2008 e atual Presidente da SBPC.
Júlio Sanna Diretor-Presidente da MRN
Ubiratan Bezerra – Diretor Presidente da FAPESPA em 2008
Manoel Pereira - INPA (in memoriam)
Sergio Bringel – INPA
Domitila Pasccoaloto – INPA
Cláudio Salgado – UFPA
Cristovam Diniz- UFPA
Anderson Herculano – UFPA
Amauri Gouveia Jr – UFPA
Lúcia Harada – UFPA
Karla Ribeiro – UFPA
Lucinice Belúcio – UFPA
Victoria Isaac – UFPA
Horácio Schneider – UFPA
Iracilda Sampaio – UFPA
Ricardo Bezerra – UFOPA
Rodrigo Silva – UFOPA
Lenise Silva – UFOPA
Rosa Mourão – UFOPA
Chieno Suemitsu – UFOPA
Kátia Corrêa – UFOPA
Luis Reginaldo Rodrigues – UFOPA
Evander Baptista – UFOPA
Thiago Costa – UFPA
Fernando Pina – UFPA
Carlos Beta – UFF
Mira Carvalho– UFF
Carlinhos Dias, Aniele – Atores
Naldo – Desenhista, 
Alunos da Biologia de Aguas Interiores (em especial), Biologia à Distância, Geografia e História participantes.
Atuais funcionários da UFOPA em Oriximiná (Rogério, Leina, Carlinha e Ediego)
Eunice, Tiago, Fernanda, Leia e Carlos (SBPC).

Domingos Luiz Wanderley Picanço Diniz, é Professor Associado IV da Universidade Federal do Oeste do Pará (UFOPA), lotado Campus Universitário de Oriximiná.