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Nosso avião caiu!

Posted on November 23, 2013 por Araken França

Por mais que tente me lembrar não consigo precisar a data do acidente se 1975 ou 1976.

Nos já estávamos alojados em Porto Trombetas e como falei em Como fui parar na selva amazônica , nossa Companhia tinha um contrato de aluguel de aviões com uma empresa de táxi aéreos em Santarém e fazíamos esse trecho PTR/Oriximiná/STM e volta pelo menos uma vez a cada quinze dias. No entanto, todas as segundas eles traziam o “rancho” como falávamos: legumes, ovos, verduras além da correspondência, o malote e meus jornais da semana anterior.

Porto Trombetas/Oriximiná/Santarém

Porto Trombetas/Oriximiná/Santarém

Eu costumava dizer : – ” Se o houver uma terceira guerra mundial eu só vou saber uma semana depois!”

Essa empresa, a Real, era de propriedade de dois sócios os Comandantes Flávio e o Peres, excelentes pilotos e conhecedores da região onde voávamos. Ficamos muito amigos chegando a conhecer a família de ambos. Essa informação é importante para os fatos que se seguem.

Geralmente íamos direto para Santarém, a serviço, ficávamos lá por alguns dias e depois retornávamos via Oriximiná ou direto para Porto Trombetas. Sempre eu e minha esposa.

Vista aérea de Oriximiná – sobrevoo

Para pararmos em Oriximiná era preciso que o avião ficasse sobrevoando, em baixa altitude a cidade até identificarmos que um carro(táxi) se deslocava pela estrada que ia até o aeroporto. Feito isso fazíamos o poso no aeroporto de terra da cidade.

Posávamos e ficávamos aguardando que o “táxi” chegasse. Normalmente, como era um bimotor iam dois carros. Todos íamos para a cidade para tratar junto ao comércio e ao Banco da Amazônia, único existente, dos assuntos da empresa. Algumas vezes levávamos grandes somas de dinheiro para pagamento do pessoal.

Naquela véspera quem pilotava o avião era o comandante Peres, eu ia na cadeira do co-piloto e minha esposa no banco atrás de mim.

Ao fundo a pista de Trombetas vista da cabine do avião

Ao fundo a pista de Trombetas vista da cabine do avião

O processo de aterrissagem era o mesmo, fazíamos um sobrevoo pelo acampamento até ver que um carro se dirigia para o aeroporto. aí então o piloto manobrava para a aproximação da pista e fazia o pouso. Nunca tivemos um acidente, exceto um imprevisto que deixo para contar mais tarde.

Durante o voo o Comandante Peres nos contou da viagem que faria, com o avião em que estávamos , para o Sul. Ia visitar os parentes e fazer a manutenção e renovar a vistoria(não sei o nome correto) deste que estava para vencer.

Quando digo que estava para vencer não quero dizer dias e nem semanas ainda faltavam alguns meses e os dois sócios eram muito cuidadosos com isso. Não só pelo manutenção da qualidade dos serviços, mas também a manutenção de um patrimônio duramente construído voando na amazônia.

Foto da asa esquerda do nosso avião tirada em outra viagem

Foto da asa esquerda do nosso avião tirada em outra viagem

Em geral pousávamos em direção da cabeceira onde ficava o portão da pista. Ela era cercada para evitar que animais entrassem e pudessem prejudicar um pouso. Parávamos próximos do portão, o comandante desligava os motores, descíamos e ficávamos conversando até a chegada do carro que ia nos buscar e que normalmente aproveitava para mandar algum documento ou malote e , após entrarmos no carro e fecharmos as janelas, ele virava o avião em direção à outra cabeceira acelerava e levantava voo deixando para trás uma enorme nuvem de fumaça.

Naquela véspera o Comandante Peres não desligou o motor esquerdo e quando viu que a caminhonete estava chegando ao portão, se despediu pedindo desculpas ainda tinha de ir em uma festa no 8º B.E.C. ( Batalhão de Engenharia e Construção, do Exército Brasileiro) convidado pelo Comandante e no dia seguinte partiria para o Sul logo ao raiar do dia.

Também voltamos para nossa casa em Porto Trombetas.

No dia seguinte, logo ao chegar nos escritórios, o Gerente de Administração estava me esperando do lado de fora da sala. Encostado na pilastra, fumando um cigarro, com o jeitão de sempre eu achei. Saltei do Jipe e ele me chamou:

– “Araken, tenho que te dar uma notícia ruim, um avião da Real caiu!” – Fred, como chamávamos era assim, direto sem rodeios.

Imediatamente perguntei – “Feridos?”

– “Todos mortos!” – respondeu

Sem imaginar que o pior ainda estava por vir não quis continuar com a pergunta óbvia, quem era o piloto. Não precisou.

-“Foi o Comandante Peres! Ele a esposa, a esposa, as filhas e a sogra do Flávio e mais um bebezinho de colo!” Fred era assim, ele devia estar sofrendo muito mais pois estava ali em Porto Trombetas desde o início das atividades e continuava agora na retomada da construção.

Devo ter ficado em choque e não me lembro se fui para minha sala ou voltei para casa. O certo é que tinha que dar a notícia para minha esposa.

Os meus problemas eram dois : lidar com a notícia e como passá-la para minha esposa, afinal o Comandante Peres e nós tínhamos voado no mesmo avião que caíra.

Avião que caiu foto tirada da cabine

Avião que caiu foto tirada da cabine

Um segundo para respirar. Anos depois, no Orkut reencontro o Comandante Flávio e sua segunda esposa ficamos amigos virtuais e ela, olhando minhas fotos de Porto Trombetas identificou o prefixo do avião que caiu com o Comandante Peres e a família do Comandante Flávio.

Retornando eu ainda estava com o problema da notícia para minha esposa.

Decidi seguir o caminho do Fred e falar tudo de uma vez.

O fato é que não dava para esperar o almoço e chegando em casa cedo ou eu estava doente ou havia alguma notícia urgente.

Entrei em casa e fui falando: – ” Um avião da Real caiu e o piloto era o Peres!”

Só restava ficarmos ali, só nos dois, chorando na imensidão vazia da selva amazônica. Passados uns instantes, não sei quanto, sentamos na rede da sala e me preparei para contar toda a realidade.

Só me restava, como Gerente de Controle e Finanças, autorizar a compra e o envio de uma coroa de flores para os mortos.

Os corpos foram velados em Santarém e embarcados em um avião da FAB para serem enterrados no Sul. Antes do Búfalo decolar um avião da Real sobrevoou a pista do aeroporto de Santarém deixando cair pétalas de rosas.

Não foi um avião nosso, foi nosso avião, nosso amigo, nosso Comandante com os quais havíamos voado na véspera.

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24 de dezembro de 2014: 80 anos de reinstalação do município de Oriximiná

Em três de abril de 1900, apenas seis após a criação do município, no dia 5 de dezembro de 1894, e 23 anos depois da fundação de Oriximiná pelo padre José Nicolino de Souza, em 13 de junho de 1877, o então governador do Pará, Dr. Paes de Carvalho, influenciado por opiniões contrárias aos interesses dos oriximinaenses, decretou a extinção do município de Oriximiná, que teve seu território dividido entre Faro e Óbidos, cabendo a Óbidos, ao fim de tudo, a administração total desse legado. Por ocasião desse triste episódio, Oriximiná era administrado pelo Prefeito Manoel Ferreira, que fora nomeado para suceder o Senhor Emídio Martins Ferreira, sucessor de Pedro Carlos de Oliveira.

Inconformados com o inesperado percalço, os oriximinaenses puseram-se á luta, tentando de todas as formas restabelecerem a emancipação perdida. Apesar do empenho desmedido com que perseguiram tal objetivo, essa situação durou por mais de trinta anos, até que em 22 de marco de 1933, o Major Joaquim de Magalhães Cardoso Barata, interventor do Para, sensibilizado pelos veementes apelos dos políticos locais resolveu criar a Sub-Prefeitura de Oriximiná, que foi oficialmente instalada em quatro de junho desse mesmo ano de 1933.

Para júbilo dos oriximinaenses alguns meses depois, em 24 de dezembro de 1934, o próprio Interventor Magalhães Barata, convencido das possibilidades de desenvolvimento da localidade, tomou a iniciativa de restabelecer a sua emancipação definitiva, recompondo a sua estrutura física e administrativa, por meio do Decreto Lei n° 1.442. E no dia 10 de janeiro de 1935 foi instalado o município e empossado o seu prefeito, Helvécio Imbiriba Guerreiro. Fato esse que está registrado na ata de instalação que tem a seguinte redação:

“Ata da sessão solene de instalação do Município de Oriximiná, e posse do seu primeiro Prefeito, cidadão Helvécio Imbiriba Guerreiro.

Aos dez dias do mês de Janeiro de mil novecentos e trinta e cinco, às onze horas da manha, na sala nobre do prédio da Subprefeitura Municipal de Oriximiná, situado a Travessa Coronel Alexandre de Souza, nesta Vila de Oriximiná, comarca de Óbidos, Estado do Pará, presentes: o Doutor Antônio Pimenta de Magalhães, Prefeito Municipal de Óbidos e representante no ato de sua Excelência o Senhor Interventor Federal no Estado, Major Joaquim Magalhães Cardoso Barata; o Senhor Helvécio Imbiriba Guerreiro, Prefeito nomeado para o Município; o Doutor Antônio Laureano Diniz, Juiz substituto deste termo judiciário; Frei Ricardo Havertz, vigário da Paróquia; representante da Oitava Bateria da Costa, da imprensa e grande massa popular, teve lugar à sessão solene de instalação do Município de Oriximiná e posse do seu primeiro prefeito. O senhor Doutor Antônio Pimenta Magalhães, presidente da mesa, abriu os trabalhos e apos breve, mas eloquente e expressivo discurso declarou oficialmente instalado o Município, e em nome do senhor Interventor Magalhães Barata, deu posse ao senhor Helvécio Imbiriba Guerreiro no cargo de Prefeito Municipal, tudo de acordo com os termos do Decreto n° 1.442, de 24 de Dezembro de 1934, que cria o Município e estabelece os seus limites territoriais. Anunciada a posse, que foi recebida sob prolongada salva de palmas, usaram da palavra os Doutores Antônio Laureano Diniz e Abelardo Estevam da Costa Cruz, e mais os senhores Enéas de Mendonça Cavalcante, o Professor José Barroso, representante da imprensa obidense, e o Prefeito Helvécio Imbiriba Guerreiro, cujos discursos foram todos muito aplaudidos. Durante a solenidade, por ocasião dos discursos e ao ser esta encerrada, foram erguidos vários entusiásticos vivas a pessoa de Sua Excelência, o Senhor Major Interventor Federal no Estado, vivas que eram recebidos sob calorosa manifestação de aplausos. As doze e meia horas foi encerrada a sessão pelo Presidente Doutor Antônio Pimenta Magalhães. E como nada mais houvesse a tratar, para constar, lavrei a presente ata, a qual, depois de lida e achada conforme, vai assinada por todos. Eu, Enéas Mendonça Cavalcante, Tabelião do 2° Oficio da Comarca de Óbidos, servindo de Secretario, a escrevi.

"Assinaturas: Antonio Pimenta de Magalhães, Helvécio Imbiriba Guerreiro, Abelardo Estevam da Costa Cruz, Frei Ricardo Havertz, Pacifico Leão da Costa, Jose Barroso Foster, José Rodrigues de Carvalho, Demóstenes Imbiriba Guerreiro, Antonio Laureano Diniz, Antonio Figueira, Otavio Bentes Guimarães, Antonio Machado Imbiriba, Raimundo Imbiriba Guerreiro, Francisco Antonio Colares, Pedro Imbiriba Guerreiro, Dionísio Bentes de Oliveira Guimarães, Ovídio Marinho, Cláudio Bacelar, Filomeno Grandal, Enéas Mendonça Cavalcante”.

Fonte: João Walter Tavares. In: Inventário Cultural, Social, Político e Econômico de Oriximiná. Prefeitura Municipal de Oriximiná, 2006.

 
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