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O barquinho na rua

Marialda de Matos Santos - Rua 24 de Dezembro, Oriximiná, PA

 

Nosso avião caiu!

Posted on November 23, 2013 por Araken França

Por mais que tente me lembrar não consigo precisar a data do acidente se 1975 ou 1976.

Nos já estávamos alojados em Porto Trombetas e como falei em Como fui parar na selva amazônica , nossa Companhia tinha um contrato de aluguel de aviões com uma empresa de táxi aéreos em Santarém e fazíamos esse trecho PTR/Oriximiná/STM e volta pelo menos uma vez a cada quinze dias. No entanto, todas as segundas eles traziam o “rancho” como falávamos: legumes, ovos, verduras além da correspondência, o malote e meus jornais da semana anterior.

Porto Trombetas/Oriximiná/Santarém

Porto Trombetas/Oriximiná/Santarém

Eu costumava dizer : – ” Se o houver uma terceira guerra mundial eu só vou saber uma semana depois!”

Essa empresa, a Real, era de propriedade de dois sócios os Comandantes Flávio e o Peres, excelentes pilotos e conhecedores da região onde voávamos. Ficamos muito amigos chegando a conhecer a família de ambos. Essa informação é importante para os fatos que se seguem.

Geralmente íamos direto para Santarém, a serviço, ficávamos lá por alguns dias e depois retornávamos via Oriximiná ou direto para Porto Trombetas. Sempre eu e minha esposa.

Vista aérea de Oriximiná – sobrevoo

Para pararmos em Oriximiná era preciso que o avião ficasse sobrevoando, em baixa altitude a cidade até identificarmos que um carro(táxi) se deslocava pela estrada que ia até o aeroporto. Feito isso fazíamos o poso no aeroporto de terra da cidade.

Posávamos e ficávamos aguardando que o “táxi” chegasse. Normalmente, como era um bimotor iam dois carros. Todos íamos para a cidade para tratar junto ao comércio e ao Banco da Amazônia, único existente, dos assuntos da empresa. Algumas vezes levávamos grandes somas de dinheiro para pagamento do pessoal.

Naquela véspera quem pilotava o avião era o comandante Peres, eu ia na cadeira do co-piloto e minha esposa no banco atrás de mim.

Ao fundo a pista de Trombetas vista da cabine do avião

Ao fundo a pista de Trombetas vista da cabine do avião

O processo de aterrissagem era o mesmo, fazíamos um sobrevoo pelo acampamento até ver que um carro se dirigia para o aeroporto. aí então o piloto manobrava para a aproximação da pista e fazia o pouso. Nunca tivemos um acidente, exceto um imprevisto que deixo para contar mais tarde.

Durante o voo o Comandante Peres nos contou da viagem que faria, com o avião em que estávamos , para o Sul. Ia visitar os parentes e fazer a manutenção e renovar a vistoria(não sei o nome correto) deste que estava para vencer.

Quando digo que estava para vencer não quero dizer dias e nem semanas ainda faltavam alguns meses e os dois sócios eram muito cuidadosos com isso. Não só pelo manutenção da qualidade dos serviços, mas também a manutenção de um patrimônio duramente construído voando na amazônia.

Foto da asa esquerda do nosso avião tirada em outra viagem

Foto da asa esquerda do nosso avião tirada em outra viagem

Em geral pousávamos em direção da cabeceira onde ficava o portão da pista. Ela era cercada para evitar que animais entrassem e pudessem prejudicar um pouso. Parávamos próximos do portão, o comandante desligava os motores, descíamos e ficávamos conversando até a chegada do carro que ia nos buscar e que normalmente aproveitava para mandar algum documento ou malote e , após entrarmos no carro e fecharmos as janelas, ele virava o avião em direção à outra cabeceira acelerava e levantava voo deixando para trás uma enorme nuvem de fumaça.

Naquela véspera o Comandante Peres não desligou o motor esquerdo e quando viu que a caminhonete estava chegando ao portão, se despediu pedindo desculpas ainda tinha de ir em uma festa no 8º B.E.C. ( Batalhão de Engenharia e Construção, do Exército Brasileiro) convidado pelo Comandante e no dia seguinte partiria para o Sul logo ao raiar do dia.

Também voltamos para nossa casa em Porto Trombetas.

No dia seguinte, logo ao chegar nos escritórios, o Gerente de Administração estava me esperando do lado de fora da sala. Encostado na pilastra, fumando um cigarro, com o jeitão de sempre eu achei. Saltei do Jipe e ele me chamou:

– “Araken, tenho que te dar uma notícia ruim, um avião da Real caiu!” – Fred, como chamávamos era assim, direto sem rodeios.

Imediatamente perguntei – “Feridos?”

– “Todos mortos!” – respondeu

Sem imaginar que o pior ainda estava por vir não quis continuar com a pergunta óbvia, quem era o piloto. Não precisou.

-“Foi o Comandante Peres! Ele a esposa, a esposa, as filhas e a sogra do Flávio e mais um bebezinho de colo!” Fred era assim, ele devia estar sofrendo muito mais pois estava ali em Porto Trombetas desde o início das atividades e continuava agora na retomada da construção.

Devo ter ficado em choque e não me lembro se fui para minha sala ou voltei para casa. O certo é que tinha que dar a notícia para minha esposa.

Os meus problemas eram dois : lidar com a notícia e como passá-la para minha esposa, afinal o Comandante Peres e nós tínhamos voado no mesmo avião que caíra.

Avião que caiu foto tirada da cabine

Avião que caiu foto tirada da cabine

Um segundo para respirar. Anos depois, no Orkut reencontro o Comandante Flávio e sua segunda esposa ficamos amigos virtuais e ela, olhando minhas fotos de Porto Trombetas identificou o prefixo do avião que caiu com o Comandante Peres e a família do Comandante Flávio.

Retornando eu ainda estava com o problema da notícia para minha esposa.

Decidi seguir o caminho do Fred e falar tudo de uma vez.

O fato é que não dava para esperar o almoço e chegando em casa cedo ou eu estava doente ou havia alguma notícia urgente.

Entrei em casa e fui falando: – ” Um avião da Real caiu e o piloto era o Peres!”

Só restava ficarmos ali, só nos dois, chorando na imensidão vazia da selva amazônica. Passados uns instantes, não sei quanto, sentamos na rede da sala e me preparei para contar toda a realidade.

Só me restava, como Gerente de Controle e Finanças, autorizar a compra e o envio de uma coroa de flores para os mortos.

Os corpos foram velados em Santarém e embarcados em um avião da FAB para serem enterrados no Sul. Antes do Búfalo decolar um avião da Real sobrevoou a pista do aeroporto de Santarém deixando cair pétalas de rosas.

Não foi um avião nosso, foi nosso avião, nosso amigo, nosso Comandante com os quais havíamos voado na véspera.

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