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As Fronteiras de Henri Coudreau

Por Hiram Reis e Silva, Bagé, RS, 10 de setembro de 2013
Desembocadouro fluvial e terrestre do vale e dos planaltos do Amazonas, destinado, por causa dos seus prados e das suas terras altas a ser sempre domínio da raça ariana, o Pará, já tão apaixonadamente votado às questões da ciência, das letras e das artes, pode, com todo o direito, sentir a impaciência de ver se desenrolarem os quadros sucessivos dos seus magníficos destinos. Que seja facultado, entretanto, a um modesto viajante, que percorreu um pouco as vastas regiões da Amazônia do Norte e do Sul, insistir na necessidade de ser particularmente estudada a Amazônia marítima: o Estado do Pará (COUDREAU).

Henri‒Anatole Coudreau foi um valoroso pesquisador, do século XIX, que nos brindou com descrições fascinantes das plagas ainda selvagens de uma república embrionária às voltas com um processo de colonização deveras incipiente. Embora a viagem não tivesse o objetivo de definir as divisas interestaduais entre o Estado do Pará e o Mato Grosso ele sugere o Salto Augusto, no Tapajós, como o ponto mais adequado para se estabelecer o limite natural entre os dois Estados.
Examinando mais uma vez a questão das regiões litigiosas subsistentes nas fronteiras do Pará, é interessante abordar ainda certas considerações.

A mais conhecida destas regiões é a que se acha em litígio com a Guiana Francesa, e que os dois nomes de Cunani e Amapá marcam de celebridade, parte trágica, parte grotesca.

Além deste, há mais dois outros territórios, discutidos com o Estado do Amazonas, um ao Norte, entre o Trombetas e Jamundá, outro na zona do Tapajós e Alto Tapajós. Por fim, há o “Contestado” com Mato Grosso, de que já nos ocupamos atrás.

Com respeito ao “Contestado” entre Pará e Amazonas, no Tapajós - posto não tenha sido absoluto encarregado de tratar desta questão - permito-me, acidentalmente, exprimir minha opinião, sem pretender que ela venha a ser esposada pelo Governo do Pará.

Se estou bem informado, o Pará pediu, na região tapajônica, para fronteira com o Amazonas, uma linha reta tirada da serra de Parintins à confluência do São Manoel. E de seu lado, o Amazonas pediu o meridiano de Parintins, até o encontro do Tapajós, e daí por diante, este (Tapajós).

Apoiando-me no fato de que os afluentes da esquerda do grande Rio, por sinal pouco importantes, são povoados exclusivamente por paraenses, pois os amazonenses nunca para aí se mudaram, acho que lógico seria escolher como divisa uma linha que, partindo da Serra de Parintins, fosse a partilha das águas entre o Tapajós e os afluentes superiores do Amazonas. Pará e Amazonas ganhariam em ter para fronteira comum com Mato Grosso uma linha determinada pela posição verdadeiramente mais importante da maior queda do Tapajós: “Salto Augusto”. Aliás, se consultado, eu proporia simplesmente, pela importância de Salto Augusto, o paralelo deste, até o Araguaia e Madeira. Salvo, já se vê, as ligeiras modificações que a este traçado aconselhassem certos acidentes geográficos importantes que, embora fora da linha exata do paralelo, deveriam ser preferido, tal, por exemplo, a cachoeira das Sete Quedas. (COUDREAU)

O relatório de Coudreau não se ateve apenas aos aspectos técnicos atinentes à sua missão ou à descrição das condições de navegabilidade do Rio. Com a visão holística de um verdadeiro naturalista ele analisa a topografia, a vegetação, as rochas, sugere como deveriam ser ocupadas e exploradas as terras, descreve os costumes e as crenças dos ribeirinhos e, em especial, dos indígenas, comparando seus dialetos, seu folclore e rituais. Coudreau cita relatos interessantes sobre os Mundurucu de João Barbosa Rodrigues ‒ “Exploração e Estudos do Vale do Amazonas: Rio Tapajós”, Antonio Manoel Gonçalves Tocantins ‒ “Estudos Sobre a Tribo Mundurucu”, Manuel Aires Casal ‒ “Corografia Brasílica ou Relação Histórico-Geográfica do Reino do Brasil”, acrescentando-lhes suas próprias observações.
Que me seja permitido, primeiramente, inscrever na cabeça deste capítulo, o nome de dois homens, um dos quais é um dos príncipes da ciência brasileira, Barbosa Rodrigues, e o outro, modesto e digno sábio, meu bom amigo Gonçalves Tocantins.

Ambos publicaram bons trabalhos sobre os Mundurucu. Não quero arrogar-me a pretensão de inventar esta tribo. De sorte que apresento o meu estudo como uma espécie de revisão dos trabalhos dos meus predecessores, revisão um pouco aumentada, esclarecida com informações novas ao trabalho comum. (...)
Aires de Casal, na sua Corografia Brasílica, dá, em 1817, o nome de Mundurucania à região compreendida entre o Tapajós, o Madeira, o Amazonas e o Juruena, em razão da preponderância numérica ou guerreira, nessa região, dos Mundurucus. Estes, cujo habitat está hoje entre o Tapajós e o Xingu, viriam portanto de leste, o que fez crer a alguns etnógrafos que se devia colocar o berço desta nação entre as populações andinas. (COUDREAU).

Henri‒Anatole Coudreau (1859 ‒ 1899)
Revista Brasileira de Geografia - abril/junho, 1943

Dos exploradores franceses que, realizando investigações geográficas, percorreram a América do Sul ou trechos mais ou menos delimitados do continente, nenhum foi mais completo ‒ do ponto de vista do acervo deixado para os estudos e apreciações críticas posteriores ‒ que o antigo aluno da Escola Normal especial de Cluny ‒ Henri‒Anatole Coudreau, nascido em Sonnac (Charente‒Inferior), a 6 de Maio de 1859 e falecido na altura da cachoeira Porteira, nas proximidades da embocadura do Mapuera com o Trombetas, no Estado do Pará, às 6 horas da tarde do dia 9 de Novembro de 1899.
Professor de História e de Geografia foi, em 1881, com a idade de 21 anos, enviado à América do Sul, como professor no Liceu de Caiena, tendo antes exercido por pouco tempo o magistério em Reims.

Na Guiana Francesa iniciou, nos períodos de férias, explorações nos arredores de Caiena, dilatando pouco a pouco suas viagens de estudos e observações até regiões mais afastadas, colhendo o material para o trabalho, publicado em 1883, denominado “Richesses de la Guyane Française”, trabalho que obteve medalha na Exposição de Amsterdam.

De imaginação forte, amante da vida em contato com a Natureza, robusto, tenaz como Champlain e Renê Caillé, Henri‒Anatole Coudreau sempre almejou o patrocínio oficial de uma viagem de exploração na América do Sul.

Em 1883 seus desejos foram satisfeitos. A serviço do Ministério da Marinha e das Colônias estudou, numa primeira missão, e nos anos de 1883, 1884 e 1885, os imensos territórios, então contestados, entre a Guiana Francesa e o Brasil. Partindo da Aldeia de Counani, passou depois ao Rio Branco indo até o Rio Negro permanecendo, nessa viagem de estudos, dois anos cheios de aventuras, sozinho entre os naturais da região.

Os resultados dessa primeira missão exploradora valeram-lhe uma segunda, desta vez sob os auspícios do Ministério da Instrução Pública e do Ministério da Marinha e das Colônias, também.

Sua segunda missão durou ainda dois anos (Maio de 1887 a Abril de 1889) e, do ponto vista geográfico, foi particularmente rica, pois, além de percorrer um itinerário de 4.000 quilômetros levantados na escala de 1:100.000, realizou levantamentos considerados completos do Rio Oiapoque, do Maroni e do Moronini, da embocadura à nascente.

Viajando 2.600 quilômetros em Rios e 1.400 em montanhas, Coudreau precisou para cobrir os 1.400 quilômetros no Tumucumaque, marchar efetivamente 210 dias a pé, dos quais 160 pelos caminhos indígenas da floresta e 50 através a própria mata virgem valendo-se da bússola e do sabre para a abertura de picadas e, principalmente, da caça para a alimentação. Acompanhavam-no, então, dois ou três índios, insignificante escolta para uma tão longa e perigosa travessia.
Descobrira 150 cumes que foram medidos e levantados Quase todas as nascentes dos cursos d’água das duas vertentes foram fixadas, bem como, descrito o relevo geral da região dos picos rochosos. Num itinerário quase igual a mil e quinhentos quilômetros, Henri‒Anatole Coudreau fez, por assim dizer, uma revelação quase completa da cadeia, como, aliás, já acentuara em 1889, “Le Monde illustré”, de Paris.

O estudo do clima, a descrição da floresta de cacaueiros nativos e de árvores da borracha na região de Tumucumaque, ao pé das montanhas, tudo foi considerado pelo explorador francês que acreditou, com sinceridade, na possibilidade da sua exploração econômica e consequente colonização.

Do ponto de vista etnográfico descobriu, na região, cerca de 20 tribos indígenas todas sedentárias e agrícolas, pacíficas e inteligentes, das quais estudou os costumes, os hábitos e os dialetos.

Às duas viagens de 1883‒1885 e de 1887‒1889, seguiu-se a de 1889‒1891, no decorrer da qual escreveu:
“Ou ne pense, plus à la terre d’Amérique, on croit lui avoir tous pris parce qu’on a tiré un peu de l’or renfermé dans son sein Erreur! Cette terre éternéllement jeune ne demande qu’a produ ire et toute la flore exotique croit en Guyane”.

Para se avaliar da infatigável atividade do explorador após as 3 primeiras missões, basta que se atente para os trabalhos enumerados por sua diligente e inseparável companheira Madame O. Coudreau, ao escrever a biografia do ilustre espôso, exarada em “Voyage au Rio Trombetas ‒ 07 Août 1889 ‒ 25 Novembre 1889”; “La France Équinoxiale : Voyage a travers les Guyanes et l’Amazonie”; “Voyage au Rio Branco, aux Montagnes de la Lune, au haut Trombetta”; “Les Français en Amazonie”; “Dialectes indiens de la Guyane”; “Les Indiens de la Guyane”; “Les Caraibes”; “Les Tumuc‒Humac”; “Les Lèjendes des Tumuc‒Humac”; “Le Brésil Nouveau”; “L’émigration au Nouveau Monde”; “Dix ans de Guyane”, etc, etc. Quanto aos itinerários e levantamentos foram assinalados por Madame Coudreau, ao todo, 38 folhas de levantamentos!

Em 1895, Henri‒Anatole Coudreau inaugurou um serviço de exploração no Estado do Pará, tendo sucessivamente explorado o Tapajós, o Xingu, o Tocantins, o Araguaia, o Itaboca, o ltacaiunas, bem como a zona compreendida entre o Tocantins e o Xingu, o Jamundá e o Trombetas, em cujas margens faleceu. À cerca da sua atividade e do valor de seus trabalhos escreveu Madame Coudreau:
“Ao cabo de cada viajem publicou um livro relatando-a. Era muito produzir para um diletante como Coudreau”.

Em 1895, foi incumbido pelo Governador do Pará ‒ Lauro Sodré ‒ de uma missão científica no Rio Tapajós. A respeito publicou, em Paris, 1897, Voyage au Tapajoz, volume traduzido para o português por A. de Miranda Bastos, com anotação de Raimundo Pereira Brasil, Companhia Editora Nacional, volume 208 ‒ Série 5, Brasiliana, Biblioteca Pedagógica Brasileira, S. Paulo. No volume em apreço teve ocasião de finalizar o capítulo IX com as seguintes e sugestivas palavras sobre o futuro do Pará:
“O Pará, mais povoado, mais rico, tem o dever de tomar as grandes e audaciosas iniciativas que progressivamente farão desta região a rainha das regiões equatoriais, num meio de produção rico e variado, um centro deslumbrante e atraente de civilização. É indiscutível que se o Pará aplicar com decisão e perseverança a divisa ‒ ‘Conhecer e fazer conhecer’, esta terra, para a qual o futuro começa a desenhar-se, conhecerá eras de esplendor e opulência” (RBG).
Fontes:
COUDREAU, Henri Anatole. Viagem ao Tapajós – Brasil – Rio de Janeiro – Companhia Editora Nacional, 1940.
RBG (Revista Brasileira de Geografia). Vultos da Geografia do Brasil ‒ Henri‒Anatole Coudreau ‒ Serviço Gráfico do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística ‒ Abril/Junho de 1943.

A seguir.
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Coronel de Engenharia Hiram Reis e Silva
Professor do Colégio Militar de Porto Alegre (CMPA);
Presidente da Sociedade de Amigos da Amazônia Brasileira (SAMBRAS);
Membro da Academia de História Militar Terrestre do Brasil – RS (AHIMTB – RS);
Membro do Instituto de História e Tradições do Rio Grande do Sul (IHTRGS);
Colaborador Emérito da Liga de Defesa Nacional.
E-mail: Este endereço de e-mail está protegido contra SpamBots. Você precisa ter o JavaScript habilitado para vê-lo.
Blog: http://desafiandooriomar.blogspot.com.br/
Autor do livro “Desafiando o Rio-Mar – Descendo o Solimões” está sendo comercializado, em Porto Alegre, na Livraria EDIPUCRS – PUCRS e na rede da Livraria Cultura (http://www.livrariacultura.com.br). Para visualizar, parcialmente, o livro acesse o link:
http://books.google.com.br/books?id=6UV4DpCy_VYC&printsec=frontcover#v=onepage&q&f=false

 

O cardápio do Círio

Hora de montar o cardápio do Círio. Um mês antes? Sim, um mês antes. Há quem more no percurso da procissão e cumpra a tradição de abrir a casa para parentes e amigos; estes vão precisar de alimentos leves e sucos. Há quem faça almoços, assim, no plural: o almoço da família matriz, em que irmãos, chefes de família eles também, se congraçam com os pais, na sexta ou no sábado; e o almoço da própria família, no dia da festa. E há, naturalmente, o almoço do dia.

As opções são paraenses, mas nem sempre típicas. Este século com mania de magreza e complexo de colesterol acaba permitindo (ou forçando) pratos ditos saudáveis, em que a gordura é reduzida ao mínimo. Não tem importância: o Pará permite.

Para começar, a comida para o lanche durante a procissão, preocupação de quem abre a casa para convidados. Pode ser um simples cafezinho, trazido de Limoeiro do Ajuru. Ou frutas: abacaxis de Salvaterra, jambos de Santa Isabel, laranjas de Capitão Poço, mangostão de Santo Antonio do Tauá, muricis de Afuá.

Delicadezas: alfenins de Alenquer, rosquinhas com a castanha do Pará de Marabá ou com a tapioca de Capanema. Sucos com o bacuri de Augusto Correa, o cacau de Altamira, a acerola de Aurora do Pará e o cupuaçu de Vigia. E água mineral de Terra Alta.

Conforme a hora, os aperitivos para quem reúne antecipadamente: bolinhos com piracuí de Santarém ou com surubim de Marapanim. Empadas com frango de Santa Isabel. Palmito de Muaná. Castanhas de caju de Tailândia. Queijo de búfala de Soure ou Peixe-boi.

O almoço tradicional leva maniçoba, feita com carne de porco de Benevides, maniva de Bonito e linguiças de Rio Maria. E patos de Cametá no tucupi de Maracanã com jambu de Marituba. Tudo acompanhado por farinha de Bragança e arroz de Palestina. E arrematado por açaí de Ponta de Pedras.

Um almoço mais leve pode conter costelinhas de tambaqui de Oriximiná, caranguejo de São Caetano de Odivelas, pescada amarela de Viseu, pirarucu salgado de Monte Alegre no coco que vem de Salinópolis. Ou pirarucu frescal de Conceição do Araguaia com bananas fritas de Itaituba. Como opção, filhote de Gurupá e camarões de Abaetetuba.

Cardápio vegetariano? Não seja por isso! Alfaces de Ananindeua, soja de Novo Progresso, massas de Castanhal, pepinos de Inhangapi, milho de Monte Alegre, tomates de Aurora do Pará. E palmito, desta vez de Breves. Com queijo de coalho feito em Traquateua.

Qualquer cardápio precisa de temperos. Não nos faltam. Pimentas: do reino, de Tomé-Açu, dedo de moça, de cheiro, malaguetas, do Acará; salsinha e coentro de Belém.

E qualquer cardápio precisa de sobremesas. Salada de frutas, por exemplo, à paraense, com abacate, abacaxi, abricó, banana, kiwi, laranja, mamão papaia, manga rosa, melancia e tangerina, temperada com suco de maracujá. Todas produzidas aqui. Cremes, mousses ou sorvetes de cupuaçu, bacuri, graviola, coco e maracujá. E, claro, nossos pastéis de Santa Clara com recheio de cupuaçu.

Minha Nossa Senhora! Quanta riqueza!

Ana Monteiro Diniz (http://amdiniz.blogspot.com.br/2013/09/o-cardapio-do-cirio.html)

Segunda-feira, 16 de setembro de 2013

Ana Monteiro Diniz, escritora e jornalista, nasceu em Oriximiná. Seus pais, Antonio Laureano Diniz e Elza Monteiro Diniz.

 
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